Adoção Tardia
A bibliografia e a experiência prática mostram que cada caso de adoção tem uma trajetória única e singular, ou seja, cada caso é um caso. Contudo, observa-se certas características regulares, que se repetem nos diferentes casos, em especial nos casos de adoção de crianças maiores. A família adotante deve ser informada sobre essas ocorrências para que possa preveni-la ou minimizar seus efeitos, durante o estágio de convivência. Percebe-se que, seja biológico, adotivo ou por afinidade, cada vez que um novo membro é inserido em uma família, instala-se uma situação de crise. Crise com todo o seu potencial destrutivo de risco (perigo), mas também de oportunidades e crescimento/evolução.
São características do período denominado estágio de convivência:
• Surgimento de comportamentos regressivos na criança – que variam tanto na forma de expressão
como na intensidade e são típicos de fases anteriores do desenvolvimento psicológico infantil, como por Exemplo: fazer xixi na cama ou nas roupas (mesmo que não faça no abrigo), querer usar fralda e/ou mamadeiras, querer entrar na barriga da mãe adotiva ou mamar em seu peito. Acredita-se que esta fase também ocorra em crianças maiores como tentativa de resgatar seu desenvolvimento incompleto ou interrompido e reconstruir um novo “eu” a partir da relação com a nova mãe e/ou novo pai (adotivos). É como se a criança retornasse ao estágio imaginário de recém-nascido e quisesse viver uma espécie de segundo nascimento. Este “retorno” funciona como um resgate de fases importantes do desenvolvimento infantil que desejam viver melhor junto aos novos pais. É importante que os adotantes observem a criança buscando “renascer” deles. O contato corporal, pele com pele, os cuidados prestados pelos pais à criança nesta fase são essenciais. Recomenda-se também a prática da Shantala (massagem);
• Agressividade em geral – logo após a fase de encantamento mútuo. A eclosão de comportamentos agressivos, violência física e/ou verbal – muitas vezes, gratuita ou sem aparente correlação com fatos concretos – deixa os adotantes frustrados e desconcertados, sem saber o que fazer com a criança e sem saber o que fizeram para merecer tal tratamento. É importante lembrar que no abrigo, muitas vezes, as crianças adquirem comportamentos violentos para se defender. Ajuda muito quando a família adotante estabelece claramente as regras familiares, os limites e as figuras de autoridade. É fundamental para o enfrentamento desta fase, que os adotantes tenham paciência, firmeza e entendam essas “explosões emocionais” como uma necessidade da criança de ser contida emocionalmente pelos “novos pais”. Ela não sabe lidar com os sentimentos contraditórios que experimenta e os expressa de forma destrutiva. Muitas vezes, a criança adotada deixou tias queridas, amigos ou irmãos no abrigo e ainda não elaborou tais perdas; é comum que ela enfrente situações novas o tempo todo na escola e no lar, onde lhe são exigidos determinadas atitudes e comportamentos; não raro a criança fantasia que a família adotiva será permissiva, atenderá todas as suas vontades e ao se deparar com a realidade tem dificuldades para aceitar os limites e as regras da casa. Os pais precisam que ser “continentes”, tem que ajuda-los a compreender, a dar sentido e significados para estas expressões de sentimento de forma mais construtiva. Alguns autores relacionam a capacidade da criança para estabelecer novos vínculos com a possibilidade de expressão e entendimento pelos pais adotivos de suas necessidades emocionais mais primitivas. É fundamental em alguns casos que a criança e a família recebam um acompanhamento psicoterapêutico especializado de forma a ajudá-las a vivenciar esta fase de forma mais construtiva e menos desgastante;
• Agressividade em particular contra a mãe adotiva – é comum a mãe adotiva ser o alvo preferencial dos ataques da criança. A figura materna em nossa sociedade é carregada de simbolismo. Por vezes, a criança cola o “fantasma da genitora” na mãe adotiva, desferindo contra esta última todos os ataques dirigidos à primeira. Não foi a mãe adotiva que por diversos fatores precisou entregá-lo ou abandoná-lo, mas a criança parece agir com a nova mãe como se ela tivesse feito isso. O temor de que tudo isso aconteça novamente desencadeia atitudes hostis contra os pais adotivos, em especial contra a mãe. Como forma de se proteger de mais uma frustração.
• Ritmo acelerado do desenvolvimento global da criança – aspecto gratificante para a família adotante, uma vez que percebe a evolução rápida da criança como fruto de sua atenção e investimento. O ambiente familiar oferece novos modelos e a criança aprende tudo muito rápido, cresce, ganha peso. Apesar de muitas vezes, regredida emocionalmente, a criança demonstra uma necessidade muito intensa de aprender. Segundo Vargas, “quando a criança alcança no novo ambiente familiar, a satisfação de suas necessidades fundamentais para reconstruir sua trajetória a partir dos novos modelos, ela, rapidamente, pode evoluir para estágios posteriores”. As novas aquisições confirmam seu valor pessoal e são formas de atender as expectativas familiares que garantem a criança a aceitação social.
• Esforço significativo da criança para se identificar com os novos modelos parentais – a criança procura imitar o novo pai, mãe, irmão(s) – “olha… sou igual a você”. Ela busca estabelecer laços significativos com a nova família. Aliás, esse é um empreendimento mútuo, adotantes e adotados percebem semelhanças, às vezes, até mesmo físicas. É a busca de “uma pele comum”, um laço que represente a união familiar e a inserção do adotivo como filho(a) – ainda que tal esforço se alterne com as explosões agressivas nas quais a criança diz “você não é meu pai/não é minha mãe”.
• Aquisição de novos hábitos – a criança é inserida em outro grupo (familiar, social, cultural) com hábitos e valores diferentes daqueles do grupo anterior no qual se encontrava. Todos sabemos como é difícil –e leva tempo- modificar costumes e hábitos. Muitas vezes, novos hábitos (de higiene, de alimentação, de estudo), novos sabores, novas experiências precisam ser assimiladas, mas sobretudo é preciso “dar um tempo” para que a criança se abra às novas experiências e as assimile. Em períodos tensos e confusos, muitas vezes somos atraídos para as regularidades, para aquilo que é familiar e conhecido. Assim como a criança precisa ver o mundo com os olhos da nova família, essa nova família também precisa vê-lo pelos olhos da criança. Trocar de lugar com a criança pode ser uma brincadeira gostosa em que pai, mãe, filho(a) experimentem novas sensações e possam se colocar um no lugar do outro.
• Aquisição de novos hábitos alimentares – é comum o relato de que no início a criança não tem medida para comer, ingerindo muito alimento a cada refeição, como se a comida fosse acabar ou ela quisesse comer tudo sozinha. É normal também que após a fase inicial de deslumbramento e mais segura de aceitação dos novos pais, a criança passe a recusar ou selecionar alimentos. Em geral, este é um ponto de estresse entre as crianças e os novos pais – e é muito desgastante “lutar” com a criança a cada refeição. Alguns lembretes para os pais fazem-se necessários: a criança aprende muito mais por imitação do que por “conselhos”, então, se você quer que seu filho(a) tenha uma alimentação saudável que inclua frutas, verduras, legumes e folhas, você também tem que comê-las. Estimule o paladar do seu filho(a) com alimentos variados, prove-os, enfeite-os. Faça uma competição de sabores com alimentos amargos, azedos, doces, salgados, experimente com ele, o faça perceber qual parte da língua sente aquele sabor.
• A criança constrói um novo “eu” – a criança fantasia o seu romance familiar, ora idealiza pais que irão resgatá-las das situações percebidas como negativas na família adotiva. Ora fantasia que os pais adotivos eram mesmo seus pais biológicos, negando sua história de abandono e abrigamento. Tais fantasias embora muitas vezes totalmente contrárias à realidade dos fatos são importantes no processo de reconstrução do ego da criança. O confronto destas fantasias com a realidade é inevitável e a capacidade da família adotante para compreender e ajudar a criança neste processo é fundamental. A criança também passa a apresentar sentimentos onipotentes de invulnerabilidade, identifica-se com super-heróis, manifestações que objetivam uma imagem positiva e valorizada de si mesma.
• Mobilização de emoções intensas e carregadas de ambivalência – Tanto os adotantes como a criança adotada experimentam tais emoções. É importante que os adotantes lembrem que são adultos e têm mais recursos para lidar com as emoções do que as crianças. É importante também que os adotantes possam desenvolver relações afetivas de qualidade apesar das condições críticas da fase de adaptação. Eles não devem se esquecer de que os vínculos parentais podem sim ser construídos tardiamente, mas não surgem automaticamente e dependem do quanto são nutridos. Ambos, pais e criança, investem nestes vínculos, mas são os pais que detém a maior parcela de responsabilidade e autonomia na relação.
A construção do vínculo e de uma relação saudável entre pais e filhos depende muito mais dos fatores ligados à convivência, à interação, ao afeto e respeito mútuos do que aos laços biológicos que por si só não garantem o vínculo. Estabelecer este vínculo e consolida-lo é uma conquista mútua diária com momentos muito prazerosos e outros nem tanto. Nunca se está inteiramente preparado, nem nunca se está inteiramente pronto.
Referência bibliográfica:
Vargas, Marlizete.(1998) Adoção tardia: da família sonhada à família possível. São Paulo: Casa do Psicólogo.
Retirado da Comunidade do Orkut: Projeto Aconchego









