Um Drama em Três Atos
No momento em que se decide pela adoção, questões complexas e delicadas surgem dentro e fora do seio familiar. Preparar-se adequadamente para enfrentá-las é fundamental para o bem-estar do novo relacionamento.
Seria um reducionismo acreditar que a adoção por si só seja a fonte exclusiva de todos os males. Muitos pais, por exemplo, temem pela evolução intelectual da criança adotada ou mesmo por seu desenvolvimento afetivo e psicossocial. Alguns autores afirmam que o desenvolvimento intelectual depende da atitude dos pais adotivos, bem como das solicitações culturais e do clima familiar em que a criança cresce. Já o aspecto psicossocial e afetivo está ligado a vários fatores, entre os quais a atitude perfeccionista e ansiosa a respeito de seu futuro.
Ter um filho, seja natural ou adotivo, requer sempre uma preparação. Antes de mais nada, é importantíssimo criar entre o casal um ambiente interpessoal, no qual será inserida uma terceira pessoa, incompleta, portanto frágil, que exigirá muitos cuidados. Se isso não acontecer, a rivalidade e o ciúme poderão surgir por parte de um dos pais, que sentirá a criança roubando seu espaço afetivo. Faz parte ainda dessa preparação entender os desejos reais que motivam o casal a querer um filho: ele vem para salvar o casamento? Para fazer companhia a um dos pais? Para substituir um filho morto? Para suprir a falta de afeto entre o casal? Ou para diminuir a tensão e, com isso, talvez, facilitar a ocorrência de uma gravidez? Deve-se estar consciente at&ea????)?C??»??$cute; dos riscos de se poder ter um filho saudável ou doente e da profunda responsabilidade que se terá pelo desenvolvimento de sua personalidade. É preciso ter em mente, sobretudo, que existe a vida de uma criança em jogo, a qual não poderá ser devolvida como algo com defeito de fabricação.
Família naturalmente constituída: equilíbrio que pode ser rompido diante dos problemas inevitáveis.
Os pais adotantes precisam também trabalhar suas feridas em relação à questão da infertilidade: o clima tenso em relação à culpa da impossibilidade de gerar um filho, a tortura das inúmeras tentativas e frustrações, a intensa corrida atrás de tratamentos, a sensação de humilhação, a cobrança da família e da sociedade por não poder ter filhos, etc. E, se a adoção poderia viabilizar a paternidade do casal, ainda há que se lutar com a discordância familiar a respeito disso e mesmo contra os medos do estigma do filho adotado – visto muitas vezes, erroneamente, como uma criança revoltada, ingrata em relação a quem lhe deu um lar, incapaz de superar o trauma de seu abandono. Resta ainda o temor de que a origem genética da criança possa transformá-la em um marginal ou dependente químico.
A preparação deverá trazer ao casal tranqüilidade para lidar com os problemas que surgirem no âmbito familiar, os quais, com certeza, não faltam nem mesmo na família natural. É provável, por exemplo, que, ao entrar em um novo ambiente, a criança se mostre ins????)?C??»??$egura, pois, ao mesmo tempo em que está feliz por ter um lar, tem medo de perdê-lo, podendo mostrar-se agressiva até adquirir confiança. Por outro lado, a criança mais velha pode ter maior dificuldade para formar vínculos, uma vez que perdeu laços afetivos anteriores, seu ambiente, seu modo de viver, isto é, suas referências. Por conta desses problemas e da concepção de que uma criança maior é mais difícil de ser reeducada, um número cada vez maior de casais prefere adotar bebês; isso, além de tudo, lhes garante o acompanhamento dos primeiros anos de vida da criança.
É importante que a família adotante seja paciente, carinhosa e tenha, principalmente, a compreensão de que aquela criança é alguém que viveu uma história de abandono e rejeição com os pais verdadeiros; ao mesmo tempo, terá de se conformar em conviver com pessoas diferentes dela.
Diferença na cor da pele: preconceito a ser superado.
A verdade sobre a adoção da criança, principalmente a que vai para a casa dos pais ainda bebê, nunca deve ser omitida ou negada. A história de sua origem deve ser clara. Muitos pais temem revelar a verdade para os filhos com medo de causar-lhes sofrimento. Nesse caso, porém, a mentira realmente pode causar um duplo sofrimento: um necessário, que envolve sua verdadeira história – a qual ninguém tem direito de omitir –, o outro relativo à perda de confiança nos pais adotivos.
Deve-se ter em mente que os problemas nunca deixarão de ocorrer, seja numa família naturalmente constituí????)?C??»??$da, seja numa família adotiva. O importante é que o novo lar possa ser um continente afetivo e adequado à criança para que ela possa trabalhar suas dores e perceber que é amada e desejada, senão não estaria nessa família.
Psicologicamente, adoção significa acolhimento, para que a criança possa erigir sua individualidade, pois se sabe que aquela que vive numa instituição desenvolve-se muito menos do que a que tem uma estrutura familiar adequada. Ao mesmo tempo, significa dar aos adotantes a possibilidade do exercício da paternidade não apenas como um papel social a ser desenvolvido, mas como a necessidade humana de doação. As ligações humanas não são necessa-riamente condicionadas aos laços sangüíneos; na adoção, elas se desenvolverão, na verdade, através da afinidade dos corações de pais e filhos.
Recém-nascidos: adoção facilitada por não
terem nenhum vínculo familiar anterior.
Juridicamente, adoção é o ato que cria o parentesco civil, gerando laços de paternidade e filiação independentemente de procriação. Ela garante ao filho adotivo, portanto, um status idêntico ao dos filhos consangüíneos.
Antigamente, a adoção era feita casualmente, isto é, ela acontecia a partir da morte de um parente, por exemplo; por conta disso, as crianças eram acolhidas por um vizinho ou um parente. Havia também famílias que criavam uma criança, dando-lhe tudo o que precisasse, mas ela assumia um papel específico dentro da????)?C??»??$ casa, onde era encarregada dos afazeres domésticos.
Nas últimas décadas, porém, o problema do menor abandonado vem se tornando cada vez mais complicado e gritante, graças, sobretudo, ao baixo poder aquisitivo das classes mais populares e à rejeição, por suas próprias famílias, às mães solteiras, cuja idade varia entre 15 e 30 anos. Na maioria dos casos, elas não têm uma profissão definida e a gravidez ocorreu ao acaso, como fruto de uma relação sem maiores compromissos. Em geral, seus filhos são entregues a um orfanato e a escolha das famílias para eles é feita pela própria instituição, através de entrevistas com os futuros pais, na qual se tenta encontrar semelhanças a fim de se adaptar fisicamente a criança. Observa-se ainda a maturidade do casal, regida por suas experiências de vida, cultura, saúde, etc. Alguns critérios avaliam se ele teria condições para adotar uma criança de outra raça ou que tenha deficiência. Antigamente, no ato da adoção, levava-se em consideração apenas a condição material da família adotiva. Atualmente as coisas mudaram: tem-se como importante também a análise das qualidades afetivas e dos motivos de adoção dos futuros pais.
Graças ao crescente número de separações e de novos casamentos, o próprio conceito de família mudou. Hoje temos a família nuclear intacta – quando pais e filhos vivem juntos; a família binuclear – o pai e a mãe estão separados, mas seus filhos transitam nas duas casas; famílias de recasamento – novas uni&otild????)?C??»??$e;es com filhos de um e/ou de outro, com ou sem filhos em comum; famílias monoparentais – pai/mãe solteiros ou viúvos. Filhos adotivos e biológicos podem ir e vir no decorrer de suas vidas entre esses diferentes tipos de organizações; ao reconhecer essa realidade, o atual Estatuto da Criança e do Adolescente vigente no Brasil ampliou a possibilidade de adoção. Hoje, a lei brasileira não faz distinção de estado civil, nacionalidade ou sexo do adotante, desde que a pessoa seja maior de 21 anos e possa preencher os requisitos exigidos pela lei.
A afetividade do novo lar ajuda a criança a superar suas dores.
É preciso ficar claro que registrar uma criança abandonada como filho legítimo, sem submetê-la a um processo legal, constitui crime de falsidade ideológica, previsto no Código Penal. Mesmo que a criança seja encontrada numa cestinha na porta da frente, ela deve ser submetida aos requisitos legais, o que proporcionará segurança futura a quem deseja adotar. Haverá certeza, por exemplo, de que os pais biológicos não reclamarão futuramente o filho doado. Se as nossas leis fossem mais ágeis, porém, se evitaria que a adoção fosse feita de maneira ilegal, como ocorre com freqüência no Sul do Brasil.
Menor abandonado: problema social
que pode ser resolvido com a adoção.
A adoção é gratuita e as despesas com documentos quase inexistentes. As crianças são colocadas à disposição para serem adotadas por institui&c????)?C??»??$cedil;ões especializadas junto ao Juizado de Menores, com equipes qualificadas que atendem cuidadosamente aos direitos da criança, fazendo diagnósticos, selecionando famílias, apoiando e orientando dentro das necessidades existentes. O processo, porém, acaba sendo muito moroso, uma vez que, na tentativa de atender a criança da melhor maneira possível, os profissionais tornam-se excessivamente exigentes. Muitas vezes, chegam até mesmo a vetar famílias por considerar seus motivos impróprios para a adoção. Talvez eles devessem levar em consideração que é preferível ter uma criança em casa do que numa instituição e, em vez de simplesmente recusar os pais adotivos, pudessem prepará-los e orientá-los na superação de suas dificuldades. Segundo Maria Tereza Maldonado, em seu livro Caminhos do Coração, “(…) as equipes de profissionais poderiam (…) conhecer melhor as pessoas em questão, esclarecer sobre as dificuldades mais comumentemente encontradas, organizar reuniões de pessoas que desejem adotar para que se converse sobre sentimentos, apreensões e expectativas comuns a todos que estão em processo de gestar uma maternidade e uma paternidade na adoção”.
Com a enorme escalada da violência no Brasil, é de profunda importância que a comunidade repense o problema do menor abandonado. Não podemos simplesmente cruzar os braços e esperar que o governo resolva a situação. É importante que sociedade e governo reflitam e busquem, juntos, soluções para o problema. De fato, torna-se mister, entre outras coisas, reorientar e conscientizar a população mais carente – cam????)?C??»??$ada em que se observa a maior incidência de nascimentos e abandonos – sobre a necessidade de se controlar os índices de natalidade. Todas essas, não há dúvida, são medidas necessárias e urgentes para resgatarmos a paz social. Mas por que não pensar na adoção de crianças carentes como um passo importante na transformação do mundo à nossa volta? Afinal, quando resolvem desempenhar o papel de protagonistas da história, pais amorosos, com certeza, podem dar um final feliz a qualquer drama.
Fonte: www.terra.com.br









